Conheça o Projeto Aliadas
Frente Parlamentar
Projetos de Lei no Congresso
Legislação
Brasil sem Homofobia
Aliadas na Prática
Publicações Aliadas
Notícias e Artigos
Fale conosco
Links
 
  Clipping

05.11.2007
“Somos todos iguais pero no mucho”


“Somos todos iguais pero no mucho”

De acordo com consultor da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Travestis e Transgêneros (ABGLT), Caio Varela, a sociedade brasileira tem muito que evoluir em termos de igualdade de direitos. A frase citada por ele "somos iguais pero no mucho" reflete um pouco daquilo que é a cultura brasileira. Na Constituição, conforme o artigo , somos todos iguais. Mas na prática a vida para muitos brasileiros ainda está muito aquém do que diz de fato a lei.

A citação de Varela soa como um desabafo e ao mesmo tempo um suplício. Isso porque, segundo dados da ABGLT, no Brasil uma pessoa é assassinada a cada dois dias pelo fato de ser homossexual.

Com o propósito de tentar conter essa onda de violência, tramita na Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado o Projeto de Lei da Câmara (PLC 122/06), que visa tornar crime o preconceito e a discriminação contra os homossexuais. A matéria já passou pela Câmara dos Deputados e levou cinco anos até ser aprovada.

Varela falou com exclusividade ao blog Mídia Alternativa: A Hora e Vez sobre o projeto, discriminação, assassinatos e de suas perspectivas quanto a aprovação da matéria.


A Hora e Vez: Como você entrou para a ABGLT?
Caio Varela: A história da minha família sempre foi de esquerda. Sempre lutamos pela garantia dos direitos de todos e todas. Na escola secundária e na faculdade participava do Grêmio Estudantil. Percebi que por ser homossexual teria que lutar muito para usufruir dos meus direitos. Percebi na prática que a violência contra os homossexuais são sempre crimes de ódio. Você deve saber que os travestis carregam o apelidado de boneca. Em função disso, um travesti foi assassinado e teve cabeça, braços e pernas decepadas. Depois costuraram os membros de volta ao corpo e escreveram no peito “essa é a verdadeira boneca”. Isso me chocou muito.

A Hora e Vez: Você já sofreu discriminação?
Varela: Violência física nunca sofri. Mas verbal, que muitas vezes é pior, sofri várias vezes. Algumas vezes não fazem na minha frente, não falam na minha cara. Ficam com chacota, estigmatizam, criam estereótipos, dizem que gay é isso e aquilo. Fazem uma espécie de diferenciação social. Mas a pessoa que é gay, ou lésbica, ou transexual é antes de tudo um ser humano que tem sentimentos e direitos como qualquer outra pessoa. Não queremos privilégios, queremos a garantia dos nossos direitos como cidadãos.

A Hora e Vez: Quais as suas expectativas para a aprovação do PLC 122?
Varela: O projeto está para ser votado na Comissão de Direitos Humanos (CDH). A senadora Fátima Cleide, que é relatora o projeto, apresentou parecer pela aprovação da matéria. Acho que na CDH conseguiremos aprovar. Depois disso o projeto será encaminhado para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e talvez aí a coisa seja mais complicada.

A Hora e Vez: E depois de passar pela CCJ?
Varela: Se não sofrer nenhuma modificação, o projeto será enviado ao plenário do Senado para votação. Se aprovado vai para o presidente Lula sancionar. Dependendo dos acordos, o projeto pode sofrer alguns vetos.

A Hora e Vez: Na sua opinião, quais os benefícios que o PLC 122 trará na prática?
Varela: O projeto é um direito de resposta para tentar coibir os atos discriminatórios. Ele também é uma contribuição para tentarmos mudar a cultura. O PLC contribui para amenizarmos o preconceito contra os homossexuais.

A Hora e Vez: Você acha que a oposição de religiosos ao projeto é justa?
Varela: Enquanto vivemos num regime democrático sim. Mas algumas críticas que se fazem servem apenas para fomentar ainda mais a violência, o preconceito e a discriminação. Esse tipo de oposição não tenho como achar justa.

A Hora e Vez: No geral, o brasileiro é preconceituoso?
Varela: Sim, é. E não apenas com os homossexuais, mas com as mulheres, os negros e todos aqueles historicamente discriminados. O Brasil é um dos países mais homofóbicos do mundo. Apesar de não ter um sistema de castas como na Índia é um pouco parecido. Somos todos iguais pero no mucho. O sistema de cotas para negros nas universidades federais revelou o preconceito de muitos brasileiros quanto ao racismo. Antes era velado, silencioso. Agora muitas pessoas se manifestam. É como se dissessem “aceitamos vocês, mas não venham com esse papo de direitos”.

A Hora e Vez: O projeto acabará com a discriminação?
Varela: Não, mas contribui para a diminuição. Infelizmente nunca poderemos dizer que a discriminação vai acabar. Vê-se pelas agressões as mulheres, o preconceitos contra os negros e a crescente disseminação de grupos neonazistas. Mas precisamos lutar com dignidade pela garantia dos nossos direitos. Esse é o nosso grande desafio.

Entrevista publicada originalmente em: Mídia Alternativa: A Hora e Vez


<< voltar
 
 
   
 
2007-2008 © Projeto Aliadas. Todos os direitos reservados.